sampa midnight

  

Um cartão postal de metrópole noturna: lugar qualquer, qualquer não lugar.

Figuram faixas de pedestre contra o piche do asfalto, feixes fantasmagóricos, faróis bruxuleantes, mastros em riste. Placas de LED, luz neon, relógios digitais, marcadores de temperatura. Fumantes posicionados à favor do vento. Um prédio comercial, arquitetura improvável, fere a noite preta. Janelas ainda estão acesas, mas é impossível, nesse momento, saber qual alma triste está lá, o porquê. 


Um restaurante fast food que também poderia estar, nesse exato momento, servindo o mesmo hambúrguer em Hong Kong. Bangkok. Buenos Aires. Cairo. Bangladesh. Oslo. Madrid. Pretória. Brasília. São Paulo. Você escolhe. Lugares assim lembram sala de espera em aeroportos. Franquias, também mundiais, de café. Shopping centers. Toda a estrutura orgulhosa e consumista do nosso velho novo mundo civilizado.


Não usa saltos, porque andar pela cidade requer pisadas fortes, daquelas que balançam o corpo e endireitam as costas. Tem ombros largos. Em tempos áureos, garotos e garotas despejaram beijos distraídos e fugazes em seus ombros largos. Distraídos pela pungência do terror que suas vidas assomam. Fugazes com ternura sincera, pequenos milagres urbanos. 


Os ponteiros dos relógios dos jovens apostam corrida entre si. Sente-se como rainha quando apruma esses ombros largos; e então ergue a cabeça tentando ser um lince, esse flamingo desajeitado. Nesses dias, o arco do pescoço (de outras também), se torna o arco teso do arco e flecha. Passeia os olhos por tudo que é noturno, portanto sagrado.


Nesse momento, esse é o Paraíso. Um amor inexistente pela onívora cidade, mas também familiaridade absoluta com a feiura. Tal como a beleza é subjetiva, acredita que a feiura também o é. 


Às vezes, beira a insegurança. Os homens, por vezes, viram a cabeça, seguem com olhos carnívoros, devoram. Homens sentados ocupando espaço, cruzam suas pernas com lascívia e histrionismo. Calças de linho.


A redoma de ar quente te envolve nos suspiros que sussurram e flagelam. Alguma força da noite paira. Não mexem contigo. O giro do quadril é seu, mas não só. Se acende um cigarro, quem traga é sua sombra. Se gargalha alto, vibrante e feminina, não ri só. Alguma coisa acomete sua mente quando a noite se põe assim, viva, no seu caminho: pulsante. Algo que vem de dentro. Os arbustos com corpos tremendo dentro. A poesia que exala da noite, em formas que se afogam nas poças, na alegria macabra dos homens maus, nos olhos tristes dos homens bons, nos fantasmas de ex-amigos que moram ao virar da esquina.


Toda vez na rua alguma promessa sussurra no ouvido, todas mentem. 


Bares superfaturados importam música dos cortiços do mundo. Bares apertados, neon, luz neon. Chove há cinco horas na cidade. Tudo o que se sabe é o mapa do transporte metropolitano, mas a chuva impõe guerra contra as certezas também, além de sua guerra contra os humanos.


Em algum momento de vida seria possível apreciar a chuva, sem pensar nas matilhas mecânicas travando avenidas, sem pensar nas latas com rodas atulhadas de gente, nas roupas esquecidas no varal, nos cordeiros que moram no asfalto, no lixo, no esgoto? 


Fumantes posicionados contra a chuva, calor humano debaixo dos toldos, telhados. Um loiro fantasmagórico bebe sozinho, envolto numa capa de chuva azul-marinho. Te segue com os olhos translúcidos, vasculha seu rosto, sua roupa, seu cabelo indomável, sua tez destacável, com os olhos desnudos. Terror e glória ao ser percebida. 


Uma ida ao banheiro, devolve sua jaqueta esquecida no gancho da porta, mãos esguias, olhos desnudos. Te segue em distância respeitosa, faz convite à desilusão. Vira suas costas. Vai-te embora. Desilusão. Estranhos solitários em bando falam demais sem dizer nada. Você fala demais dos segredos do seu âmago com estranhos desinteressados. Você bebe uma, duas doses. Você fuma cigarros demais em curto espaço de tempo. E então vai-te embora, desejando ter vivido.


Mas neste momento, perante prédios, semáforos, cachorros vadios, esse é o Paraíso. Essa é a Hora do fundir-se com o Nada. Mas sem niilismo. Hora vazia até disso. Existe muito cansaço para que se exclua o otimismo, para que se apague a vela. Você dá um suspiro pesado, aliviada da pedra de Sísifo por breves minutos que reluzem, enfim, brilham como pirilampos que você nunca viu.


Uma vez viu, mas esse estava morto e seus olhos, seus faróis, apagados para sempre, como os olhos foscos dos tristes. Viu choros compartilhados e pessoas queridas sentenciando terrores pessoais, tentativas de suicídio, cleptomania, seguro-desemprego, dinâmicas de poder. Enamorados fazendo ronda, mesas de sinuca com feltro imundo e o colorido das bolas desbravando o espectro entre sorte e azar.


Sorte e azar. Dois lados da mesma moeda. O efeito do álcool se esvai na bruma da noite.


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