Zambelê
| Iemanjá - Carybé |
E nos olhos de Maria, a tristeza foi rezar.
Maria na beira da praia, viu a saudade chegar.
O mar molhando a saia, os olhos molhando o mar.*
Em memória de Beto, pescador e companheiro.
Maria acompanha as vagas que sobem. Maria vê a maré subir. Suas mãos são velhas.
Naquele dia, tempo atrás, a água estava gelada e cristalina. Sobretudo leve, espumava, depois escoava com um beijo de adeus. A Sereia estava em festa.
Até aquele dia, Beto desconhecia feitiços. Usava o crucifixo em respeito aos mais velhos. Gostava do cheiro de alecrim queimado e se deixava defumar nos dias de branco. Mas tudo isso era puro e refletia o afeto do sangue e da tradição. Antes daquilo, não tinha sede de poder, era belo e reluzente como um diamante negro multi-facetado. Ao lado de Saulo, prosperava com a pescaria. Tinha orgulho do ofício.
Maria amava sua vida de afeto. Almejava que seus dias continuassem naquele ciclo.
Os homens partiriam num dia cinza e voltariam num dia azul. Sua saudade se tornaria alegria ao ver as crianças fazendo festa na beira da praia, enquanto o barco amarelo se aproximaria e o sol faria as corvinas, abundantes nas redes, brilharem como peças de ouro branco. Seu riso atravessaria os limites do seu rosto e se uniria ao uníssono das risadas das crianças. A algazarra seria a anunciação dos irmãos pescadores. Juntos, formariam um elo morno e pulsante sobre a areia, que avançaria até os portões de madeira dos casebres de barro, adentrando as salas e cozinhas das senhoras caiçaras num arrepio terno. E levariam suas economias magras até a barraca colorida que mais ao longe seria montada ou fariam permuta de seus legumes e hortaliças, mas nas próximas noites teriam, enfim, carne de peixe. Beto e o mais novo Saulo repartiriam o lucro ao meio, como era justo. E Beto viria ao seu abraço, seguro e vivo. Seriam felizes…
Por Beto, Maria havia enfrentado seu medo de nadar. Em sua companhia, ousava se aventurar no raso, pois simpatizava com os humores de água mansa. Afinal, um tantinho de água assim (quando chega e acaricia a areia, como um lençol fino de cristal que cobre a pele dos nossos pés) nunca prejudicou a ninguém. Nunca fez anteriormente e não faria naquele dia.
Como em qualquer verão, fazia bom tempo, o sol refulgia, perene, superno, altivo acima. Algum deus estava em paz e os outros aquiesceram com empatia. Sob o sol, não se teme e não se imagina nenhum medo embaixo d'água.
Mas o vento tem mau agouro.
Maria ainda não sabia, mas a natureza de Beto Preto simpatizava inerentemente com as fases da lua, mapas dúbios, charadas e incertezas absolutas. Torcia pelo acaso, pelo humor das faces da moeda, pelo búzio, pelo valete de copas. Seus sonhos joviais enrijeceram sob o manto da ganância. Começou a almejar novos ventos, bolsos mais largos e pesados, camas mais macias. Adoecia: claustrofobia. Perdeu primeiro a fé, o crucifixo em alto-mar. Logo após, foi a vez da honestidade, ao dividir o lucro de irmão em 70 e 30, ao invés de 50 e 50. Também abriu mão do amor, fria e deliberadamente se afastando de sua Maria.
Por último, numa tarde de sol, sob risos e sorrisos que chegariam impotentes aos ouvidos daquele barco, uma nuvem cobriu o sol no exato momento em que Beto abarcou na beira da Praia da Agulha Negra, sozinho.
A partir de então, Saulo era uma memória e nem mesmo um corpo a se enterrar.
*
A maior distância cabe em sete palmos de terra?*
Quando pescar enfadava a alma e o intelecto, Saulo evocava seus talentos: cantigas, ladainhas e contação de causo pra passatemo. O jeito da coisa era olhar bem ao redor, montar as palavras numa ordem sensata, sensível; e depois trocar a ordem tentando manter o sentido; e ainda depois desfazer a ordem e desfazer o sentido.
Ladainha 1
Eu e meu irmão, nós dois
e o Sol
doura o barco amarelo
reluz na ponta do anzol
e no olho morto do peixe
Ladainha 2
Meu irmão e eu, nós dois
e o Sol
doura a ponta do anzol
reluz o barco amarelo
e no olho do peixe morto
Ladainha 3
Meu irmão
O Sol
A ponta do anzol
O barco amarelo
Peixe
Morto
Eu
Nós dois
*
A água clara molhou, mas secou na lua cheia.*
Ela veio em noite de maré baixa, um nível ínfimo de mar: um palmo de água de calma beirando o lacustre - quando era possível enxergar uma dúzia de crateras na superfície próxima da lua madrepérola. Uma lua gigantesca. Espalham-se ao redor de seus pés dezenas de milhares de conchas, corais e colares de contas. Todo o ouro fugitivo do garimpo. Toda a riqueza do mundo um dia tragada pelo mar. Sua pele de hematita lustrosa, brilho escamoso de peixe. Dente afilado. Perfume salgado. Senhora.
Beto deu dois passos vacilantes para trás. Os joelhos falharam. A imagem dela era turva e ondulante, como um reflexo n’água. Um peixe estrebuchava ao receber lufadas de ar sobre as escamas. O mar era mais baixo e mais plácido que uma poça. Ilhas, ossadas, tesouros, mastros. Havia Beto perdido a fé? Ela já tinha lhe dado peixe. Há semanas todas as redes voltavam repletas e todas as mesas se punham fartas ao anoitecer, mas então por quê jamais se ouve um verso amoroso ou uma graça, nem que fosse murmurada, dos seus lábios pagãos? Havia algum dia tido alguma fé? Não, nunca.
Logo você, que tem esses mares de cá mapeados na base da sua memória, teve a coragem de me conspurcar com o sangue de seu sangue.
Beto tapou os ouvidos com as mãos, mas a voz vinha de dentro da cabeça. Uma a uma, as luzes quentes que emanavam dos casebres se extinguiram. Beto foi deixado aos pés da deusa da maré. Longe, no horizonte, as ondas altas, estáticas, aguardavam ordem de descer.
Não podia mover os olhos. Todos os sentidos em brasa, as ondas do mar estáticas no ar, os sons, as ondas sonoras reverberando, mil vasos de vidros rechaçados, desintegrando em escalas agudas, reiteradas em camadas múltiplas como navalhas agudas, cortantes, incisivas, capazes de romper a pele, o platisma e todas as outras camadas de um pescoço; assim como o corte de navalha é capaz de causar laceração completa na jugular.
Um grito foi ouvido, mais um corpo foi perdido.
*
Alguém de fé específica esqueceu de acender vela e então ofendeu seu deus. Seu deus queixou-se aos outros. Concordaram, em assembleia deliberativa, 307 contra 6, que estavam muito ultrajados. O céu de chumbo se revolta e encena a ira divina. Recolhida em luto, a sereia suga todas as cores que pudessem reluzir algum resquício de alegria.
Os pés descalços e mãos enrugadas de Maria sentem frio. O vento é um açoite. Após trinta anos procurando os mesmos sóis e matizes de quando jovem, sentia ver o mundo minguar. A cada dia, cada raio de sol convalescente se torna cada vez mais acanhado, mimetizando simulações praieiras e farsas debéis de verão. Quando o mar eriça a crista - queixo triangular, pontiagudo, arrogante - e abre sua boca imensa, abocanhando fatias de céu com seus dentes de espuma, todos os pelos do corpo de Maria se arrepiam duma só vez. Quantas rugas ela tem, a rainha do mar? Ri. Isso bem faz a gente pensar. Aquela pele nunca enruga debaixo de mil toneladas de mar.
Um barulho seco e constante chama sua atenção. Antes que o grito dela coroasse pela boca, outro ataque sinestésico: o som (baque surdo e ritmado), o cheiro (marinho, carregado), a visão (real, assim como mitológica) da cauda comprida de um agulhão-negro de três metros e sessenta centímetros, eterna e brutalmente enredado ao corpo do morto num laço (um abraço) de arame farpado. Raios opacos incidem sobre a cadência acinzentada do oceano. Urubus de asas longas (as pontas brancas esticadas como dedos em riste) traçam círculos de azar. Praia da Agulha Negra. A violência do tempo, cega, por mais embrutecida que fosse, jamais alcançou o mar ou a austeridade de uma pedra pontiaguda. Cútis morta acinzentada. Um homem nu, fosco e carcomido, regurgitado pelo mar.
O olhar leitoso do peixe morto - todo branco, como o meu branco do olho, ou o seu, o branco universal - atravessa Maria.
O crucifixo de madeira de Beto Preto está firmemente enrolado ao longo do focinho do agulhão.
Vou procurar o meu lindo amor no fundo do mar.**
* = trechos de "Zambelê", música de Clara Nunes
** = trecho de "Bocochê", música de Baden Powell e Vinícius de Moraes

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