II. Arte & o Eu Negro


Processo criativo: “se a mão livre do negro tocar na argila, o que é que vai nascer?"

1.

Meus últimos três Vintes de Novembro foram tristonhos, céticos, carregados de paranoias existenciais. O fato de ser uma pessoa preta perante olhos alheios por vezes foi assustadora. 


Uma vez, Baldwin disse que é praticamente impossível diferenciar a ofensa imaginária da ofensa real. Para mim, James Baldwin (americano, preto, gay, romancista, ensaísta, dramaturgo, comunicador) é um dos maiores gênios do último século.


Talvez seja falta de subsídio literário, mas a verdade é que eu nunca vi outro autor negro capaz de dialogar tão diretamente com - talvez você - o indivíduo branco. Ainda não vi prosa tão direta, inflamada, cristalina; tão poética, rica, imagética. Sentia que, com sua língua rápida, chicote, além de denúncias genuínas sobre o mundo que o cercava, ele foi mais fundo e prestou um sensível serviço diplomático entre ambas as partes, brancos e pretos. 


Por isso fiquei especialmente desconcertada quando Baldwin descreve essa paranoia exatamente do jeito como eu sempre a senti: “É praticamente impossível diferenciar a ofensa imaginária da ofensa real.” 


Não me leve a mal, sou otimista quase em tempo integral. Talvez beire a inocência. Acredito em diálogo, troca, encontro, conversa. Meu partido é o calor humano. Quando cito Maiakóvski, realmente acredito: gente é pra brilhar. Mas o princípio da abertura é uma faca de dois gumes e abrir os braços, olhar nos olhos: tudo isso nos deixa exposto. 


Já gostava de descobrir palavras novas quando descobri vilipêndio. Vilipendiado é o sujeito-alvo de humilhação, de ofensa, de injúria; humilhado. Quem sofreu algum tipo de desprezo; quem foi tratado com desdém. Não sei se você suspeita, mas sim, por vezes me sinto vilipendiada - socialmente, politicamente, intelectualmente. Outras vezes: minimizada, inferior. 


Tive medo de usar “vilipêndio” e ser tida como pedante. 

Tive medo de não usar “vilipêndio” e me sentir burra. 

No meu processo criativo, em geral, sempre tive medo.


Pois, você - Brasil, mundo - desmerece ou desconhece que pessoas pretas plantaram a semente da maioria das árvores que enfeitam sua paisagem. Você não enxerga nossas raízes, as raízes que possibilitaram seus frutos. Arrisco dizer: pessoas pretas criaram praticamente tudo.


[Sou invisível, compreendam, simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver] - O início do livro “Homem Invisível”, de Ralph Ellison, publicado em 1947.


Mas considerando tudo isso, afirmo agora uma abordagem mais otimista. 


Nesse ano, pude entender que meu processo criativo, minha sede de referências e meu processo terapêutico, autoconhecedor, todos eles coexistem. Existe um elo que me liga, enquanto pessoa preta, à rede afro-atlântica de arte que permeia o globo terrestre. O afro-atlântico de Paul Gilroy, o afro-atlântico de Maria Beatriz Nascimento. O oceano que trouxe alguém distante na minha linhagem. A primeira de nós que viveu e resistiu aqui. Reitero minha crença: pessoas pretas criaram praticamente tudo.


2.

[A obra de arte é, então, a resposta ideal do indivíduo criativo para o problema da existência tal como ele o entende.]


[A obra de arte é a tentativa do artista justificar o seu heroísmo de forma objetiva, na criação concreta] 


[Em outras palavras, ele sabe que a obra é ele, e portanto, “má”, efêmera, potencialmente desprovida de sentido.]


Ernest Becker, no livro “A Negação da Morte” de 1976, embasado por Freud, Rank e Kierkegaard, dizendo que a única diferença entre o artista e o neurótico é, basicamente, o talento.


Eu-humana e eu-artista, siamesas, estou ressoando em tudo isso:


  • quando penso na relação entre o blues americano e o som desértico do Mali;

  • quando o ritmo da minha escrita rememora o batuque do meu povo;

  • quando me emociono com Nina Simone tocando Tchaikovski enquanto canta “My Baby Just Cares for Me”;

  • quando exerço o autocuidado político de Audre Lorde;

  • quando grito aos quatro cantos as odes da minha família;

  • quando percebo que o Brasil é realismo mágico;

  • quando digo que o rock é preto;

  • quando Nelson Cavaquinho me lembra delta blues;

  • quando meu lenço amarelo me lembra Oxum;

  • quando sinto a dor de Louis Armstrong em "What Did I Do To Be So Black & Blue?"

  • quando me dou a chance de criar, pelo prazer de, sem esquecer que sou criatura;


Tive e tenho consciência negra durante todos os dias de minha vida, desde que nasci.

Por vezes, era quase terror.

Por ora, permito que se torne êxtase e criação.


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