Previsões - Sábados & Posses


                                                                         Liana Finck - @lianafinck

Ao ser humano o tempo engana.

Correr o tempo sempre corre, isso é certo, mas em épocas, por ser um tempo de gente, o tempo cambaleia e tropeça. Nas minhas memórias favoritas, o tempo cai e se arrasta. Aos pequenos, aos curiosos de espírito, aos vagabundos, aos monges e aos bêbados, acredito que o tempo se estira e colore conforme o humor ou o desejo.

O tempo é uma linha de esquerda na umbanda, é uma linha da quimbanda. Batemos palma enquanto questionamos quanto tempo o tempo tem. Na própria imagem onírica também se apresenta o tempo. É o terço que se desfia, o tanto que eu faria se no meu tempo coubesse mais tempo. Entre deitar e despertar, o tempo continua se movendo, como o deus católico de movimento onipotente, onipresente. Independe das imagens que os sonhos formam, pulsões mal disfarçadas.

Uma gravação é o tempo materializado. A minutagem é a tela por onde se espalham frequência e tom. Uma música tem alguns minutos e tantos segundos - e trabalha, também, com a linguagem onírica, com o que se sente devido ao que se ouve e nem sempre se consegue traduzir em palavras.

Uma mensagem de voz atua na mesma tela. Amigos adultos me inteiram dos fatos de suas vidas por mensagens de áudio, uma vez por mês, sempre que nossas agendas não casam - o que já é regra e raramente exceção.

Com o passar dos anos em minha vida pouca, nasceu a impressão de que o tempo adentra a sala do dia de maneira vagarosa. Se tivesse a vida dos meus sonhos e alguma herança material, posses, acordaria muito cedo, antes do sol despontar.

Com muita frequência e facilidade, imagino vidas que viveria num tempo-espaço dilatado e ostentoso. Vestiria camisolas de algodão, acordaria antes do sol, faria café, sentaria na varanda do sonho e pensaria pensamentos calmos que só existem nesse sonho, embora até no delírio consiga me ver matutando ante o nada. O céu subiria lentamente seu tule celeste por cima do veludo escuro da madrugada. Eu viveria com calma. O corpo estaria atento a todos os sintomas e sentidos. Pisaria a madeira com os pés nus. Os dedos tamborilariam o tempo todo, qualquer coisa. Tempo é dinheiro, dinheiro é calma, calma é presença.

Pensando bem, o tempo também é um ato hipócrita. Sala voraz e expansiva. O tempo que se perde imaginando o que se faria com mais tempo continua sendo tempo. Pensava na inescapabilidade de problemas sem importância. Pensava no tempo, no peso e na canção:

“Though my problems are meaningless,
that don't make them go away/
Embora meus problemas sejam insignificantes,
isso não os faz ir embora.”

Mas olha, leia esse momento pontual de brilho eterno.

Olhando assim, debaixo do sol de uma manhã de sábado que, ao penetrar dos poros, me dá o oposto da finitude: o tempo, cruel, impiedoso, já não parece assustador assim. Coitado és tu, tempo, mera definição civilizatória. Que tempo colonizado...Hoje não vejo o tempo como o deus dos gregos que devora os próprios filhos. Convenção social, medida econômica. O tempo é um instrumento - terrível, sim, inflexível, sim - mas mesmo assim, mesmo sob cabresto, vejo o tempo como nada além disso: o cabresto. A correia, o açoite, a espada, o crachá, a pá, aquilo que uma mão maior e mais tenebrosa utiliza impiedosamente a fim de me matar.

Mas veja, eu vou morrer de qualquer jeito, em algum momento. O pulo do gato: passaremos, pássaros - juntos, eu e o tempo.

Sinto fé em mim e na humanidade pelas manhãs, durante os sábados, porque faço parte do movimento intelectual e criminoso daqueles que extraem prazer (sim), delícia, do ato de acordar cedo. Eu já entendi o relógio do meu corpo, tic-tac.

Meu sonhar é meu fazer, meu negócio é a palavra, meu partido agora é a costura do eu & o agora.

Recolho partes minhas assentadas no tempo passado: obrigado, até mais ver, obrigado. Recupero pedaços de mim que engatinham, dissimulam e tentam chegar antes do tempo no futuro: opa, peraí, calma lá, vamos com calma. Faço o 4-7-8, inspiro por quatro segundos, sustento por sete segundos e expiro por oito. E olha eu aqui de novo.

A verdadeira vida cidadã desperta num sábado sagrado e pede um pingado e um pão na chapa, na padaria da esquina. Não sonha apenas sobre o que se tem e é seu, o que é a ti agraciado, divinamente, seu direito sagrado: pão na chapa e café pingado. Para ter felicidade, além de estar integrado ao tempo que passa agora, sentir-se na cidade ajuda. Tudo que excita o sentir, aguça a pele, arrepia os pelos, leva mensagens sussurradas demoradamente ao cérebro - eu existo, eu existo, eu existo - quem, por sua vez, resplandece pelas vias do corpo sinais e informes elétricos - eu existo, eu pressinto, eu sinto, eu existo.



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