I. 20 de Novembro
Carta aberta ao Brasil, madrasta.
Em 1997, ao assumir cargo no Senado, substituindo Darcy Ribeiro, o excepcional Abdias do Nascimento foi apontado como o 1º senador negro da história brasileira. Sua resposta: “Sou? Será?”. E desfiou um terço extenso de colegas antecessores que, apesar da cor da pele, jamais assumiram identidade negra.
Perguntou: “Não constitui um escândalo que, somente agora, 165 anos após a organização das instituições legislativas nacionais, um homem de ascendência africana, consciente e orgulhoso dessa condição e representando os anseios dessa imensa população, chegue ao Senado?”
E mesmo com coroas e louros, enquanto parlamentar, Abdias viu seus projetos de lei serem arquivados sem apreciação. Mesmo o projeto de Lei nº 3196 de 1984, no qual sugeria a instituição da data de 20 de Novembro como o dia da Consciência Negra, em oposição ao 13 de Maio e seu cínico heroísmo português. Arquivado em 1985. Só 26 anos depois a data foi institucionalizada.
Minha relação com o 20 de novembro sempre foi ambígua. Por um lado: é o direito (e portanto, dever) de reiterar o direito à história, à memória, ao lugar - histórico, político, territorial e existencial.
Enquanto indivíduo, reafirmo agora meu direito ao espaço.
Enquanto coletivo, dizemos: existimos aqui, Brasil, terra madrasta. Fomos trazidos. Pelo mar, nos transportavam em suas embarcações. Fomos vendidos em seus mercados. Humanos, fomos ferramentas nas terras de outrem, apropriadas. Enriquecemos suas famílias. Propiciamos seu subsídio. Criamos seus filhos, alimentamos suas bocas. Fomos separados dos nossos. Desprovidos de nossas línguas. Desprovidos de nossas crenças. Desprovidos da capacidade de sermos bons. Desprovidos da importância necessária para sermos complexos ou ambíguos. Desprovidos de terras, nomes, filhos e filhas.
The Congos, grupo de reggae jamaicano, tem uma letra que diz: De longe tragam os meus filhos, e dos confins da terra as minhas filhas. Penso no continente, mãe-África e nos que foram arrancados de lá. A Bíblia católica, em Isaías 43:6, diz: De longe tragam os meus filhos, e dos confins da terra as minhas filhas. Penso em nossos mecanismos de lidar com o mundo através da história, ressignificando todas as coisas.
[send my sons from afar and our daughters from the end of the world]
Enquanto indivíduo, reafirmo a você, Brasil, madrasta, o que sou. E a influência que a minha complexidade tem sobre você. Quantos traços seus são meus, e portanto, nossos. Quantas amálgamas resultam da nossa combustão. Quanto da minha beleza resplandece em sua face. Quanto da minha beleza toca seu coração. Toco seu diafragma, toco suas cordas vocais. Toco suas mãos e tudo que se faz com elas. Movo seu corpo e tudo que se expressa através dele. Preencho suas papilas gustativas. Toco sua língua, sua genitália, os fios de cabelo na sua cabeça.
Por outro: nó intrincado de sentimentalismo.
Por vezes, apenas angústia existencial, paranoia, fator subjacente do manto invisível e hostil que nos envolve, a mim e a você, Brasil. É a sua violência. É a sua imposição histórica. É o seu nariz empinado, altivo, esnobe, seus olhares que me atravessam, desprezam, violam.
Às vezes, a realidade do meu lugar perante você, Brasil, no seu juízo de valor, me atravessa como a terrível certeza do beijo da morte. Parece intransponível. Sobre sua “América”, um homem preto, James Baldwin, disse: “estou aterrorizado com a apatia moral, a morte do coração que acontece em meu país”.
[the death of the heart]
Sobre você, Brasil, eu passei anos sem encontrar palavras.
Embora viva e otimista, também me sinto vilipendiada. Verdadeiramente triste, com o acúmulo secular, monumental e estrutural do que eu represento a você, Brasil. Como um monstro lovecraftiano e onipresente que enfrento como é possível: expondo a ti meu coração.


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