ÁGUA DOCE

 


1956

PAREDE DO MUNDO


As santas águas doces de mamãe Oxum.


A vida e a morte são flechas certeiras. Eu escuto a tensão da corda, a energia rompendo do peito do homem, descendo pelo ombro, se esgueirando pelo braço, deslizando pelo dedo, livre, afável, vertical, indo de ponta a ponta no couro da corda até o estouro - e o sol fulge! O filho nasce! A flecha vai! A terra é dourada, a luz é soberana e respinga a grama com seu ouro luzidio. A abóbada celeste é imensa. O pai morre! A flecha volta! O crepúsculo das almas e a ventania sepulcral, na qual as romãs podres caem do pé e se desintegram. 


Desvio de uma pata enquanto as vacas estão espalhadas sobre a relva dourada, aquecendo suas costas parrudas, os flancos lustrosos sobem e descem por cima dos músculos proeminentes. Cravam seus cascos no chão. Desvio do abano de seus rabos, chicotes. As mães estão zelando por seus novilhos e vitelos. Eu, que não faria mal nenhum, quase não estou andando, pois até os eixos da Terra decidiram mover-se lentamente: estamos a ninar um curumim adormecido. Me desmancho em sorrisos ao mar malhado. Estamos com um bom pressentimento.


Empresto a audição de algum felino. A sua filha é louca e me roubou o filho. 


Segurando o menino com a força motora, mecânica, a memória braçal. Eu sei que estou no pasto aberto ao meio-dia. Eu sei que tenho em meu colo um menininho, recém-nascido da vizinhança. Filho de lavadeira e vaqueiro. Também sei que assim seria por muito tempo, como nos sermões de padre Ciço, como um espelho firmado no céu: os filhos de Adão darão lugar aos netos de Adão e aos filhos dos netos de Adão, à medida em que o novelo se desenrola até que o perdermos de vista, pois os filhos de Adão são todos iguais. Eu também sei de muitas coisas mais e nada do que sei vem de mim. 


Por favor, me traga o meu menino! Acabei de perder meu marido, sem meu filho não vivo…


Hoje sinto-me impregnada pela complacência divina. Estou carregando um menino viçoso! Estou indo até a parede do mundo, ofertar-lhe a vida. 


Rápido: penso que lá existe a nascente de um riacho.  Qualquer água límpida, qualquer ponto de natureza, qualquer coisa assim... O menorzinho remexe e resmunga. Sorri alguma coisa dentro de mim. Mas hoje acordei numa pá virada! Como se estivesse olhando para o sol diretamente, veementemente, mas com os olhos rolados para dentro. Os olhos pra dentro da gente vêem coisas que a gente não crê. A gente sente um comichão no centro da palma e pensa em disparates, como eu, eu sempre pensei que deus fosse zangado e intransigente - talvez seja, talvez não seja - mas hoje achei - estou achando - que deus tem uma filha ou uma mãe ou uma mulher muito boazinha e clemente, uma moça dessas que a gente quer ser ou quer ter como mãe ou quer tornar esposa. Uma dessas mulheres na flor da minha idade, que tem na carne a ternura inerente ao avesso do céu. E sendo ela filha, mãe ou mulher de deus, se deus é pai, a moça é mãe. Eu vou com o muriquinho que chora e lhe digo: pois não chore, vou te levar pra sua Mãe, sentada lá na beira do rio.


Atravessando o pasto de vaca brava, lá no fim do pasto, aqui num mundaréu de capim, erva-de-santa-maria, erva-de-passarinho, erva-de-são-joão, melissa, só pro começo da medicina sincera. São poucas as dores que a natureza não acalma ou não finda. O mato cresce altivo, no meu embalo, passo cortando a pele com o capim afiado. O moleque anda enfastiado, esgoelando. Ô moleque, digo, pois não chore, vou te botar no colo da Mãe, sentada na beira d’água. Ela vai te dar um banho e vai te encher lírio. Ela vai te encher de beijo e te ninar no regaço. 


Atravessando o capinzeiro, com o passo do vento, logo a gente iria chegar no riachinho. Lá o riachinho faz quina da parede do mundo. Lá onde as mulheres lavam as roupas pela manhã, lavando, cantando, torcendo e escoando as imundícies do dia e o suor dos homens, a sujeira dos porcos e o pó do mundo. Também lá é o começo de tudo, onde tudo renasce e revigora, onde há a potência do que há, do que ainda não é, do que vai ser. Nada é estático. Eu digo, a sua Mãe gosta de canto e vai cantar pra você, então não chora.


Olha lá! Quase perto! Escuta a música das águas! Escuta a voz do vento! A gente dança, o menino chora, a gente dança com ele apertadinho no peito.


CONTO: Giovana Cristina (axolote1.blogspot.com)

COLAGEM: Raquel Lettich


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