Canto de Guerra


J. Borges


Estamos todas em frente à casa.

Surge a presença assombrosa do boi.


Eu, moça, me encolho.


Vi que a mãe estava altiva, seus olhos reluziam. Olha, menina, o tamanho! Que porte! Que forte! É carne até o final do mês! As velhas sentadas em semi-círculo concordaram em uníssono. Que felicidade!


Segurando três ramos de alecrim, torci os pés na terra seca, todos em volta da fogueira, olhando o boi. Fui mandada atrás do maço de cigarro, de olho aterrado e sempre fixo no boi. Uma velha lambia os beiços. Fui mandada atrás do defumador.


O boi e a névoa da fumaça do cigarro, todas dizendo uhummm ahammm uhummm, que porte! Como é forte! As crianças de mãos dadas em ciranda em volta do boi, boi, boi, boi, hoje tem boi, boi, boi, boi. Surge um mugido grosso vindo do poço profundo do fundo da garganta, a família exultou. As meninas seguraram as panelas acima das suas cabeças, cantando vitória. 


É um monstro gigante dum dorso bem largo e o breu do seu pêlo lustroso, revolto, é o que segue a cadência do respiro pesado. 


E a bailarina esguia, aquela que por vezes atende por mãe, abriu os braços e no giro do pulo, foi parar perfeitamente sentada no meio das costas do Pai dos Bois, a besta-fera ensandecida. O Sorriso Atravessou A Sua Face. Ela fez o número perfeito: ágil, inclinando a parte superior até abraçar o pescoço da besta amorosamente. Tudo é feito com amor, tudo é feito por amor, até mesmo a matança. 


A mulher e o boi que eram um só. A Minha Mãe Cantava um Canto de Guerra.

O boi mugiu, sacolejando, eu vi duas lágrimas escorrendo na sua cara preta, os seus chifres vão ficar penduradas na sala de estar, a sua carne vai preencher os pratos das criancinhas, o seu pelo é a nossa manta.


Eu, moça, nunca entendo. 


A mulher e o boi desceram as escadas rumo ao porão escuro. Todos se retiraram a aprontar os gumes.


Sentei na terra na frente da porta. Meu vestido é branco.


(Giovana Cristina)

(Xilogravura: J. Borges)


Comentários

  1. A sensibilidade de seu texto me fez estremecer. Como pode um cenário tão simples e cotidiano de pessoas interioranas trazer tanta emoção e destaque a dicotomia de postura? A dança coreografada produzidas pela sua escrita é impecável, em suma, isso é o que eu tenho a dizer, apenas.

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