O MATRICÍDIO

Desenho, logo existo


Não vá se acostumando com a manta de água morna. O perigo asfixia na fundura da piscina.  Assim são as noites de verão: o calor compacto paira, quadrilátero e concreto, acima das cabeças. Não tarda, cai. O silêncio cicia, o silêncio assovia na quina do seu ouvido, a filha. 


No epicentro da espiral, a mãe acena. Enumera:


Já não gosto de seu rosto, já não vejo sua face e não suporto a semelhança. 


Família é quimera. Meu pai é adubo. Minha mãe é carcaça. Meus filhos são nulos. Invisíveis. Imbecis. 


Já não fico, já não gosto, já não gero, já não crio, já não cuido.


Já não quero você.


(Giovana Cristina)

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