PORTEIRA - II e III



Sentiu o assassínio da última centelha quente no corpo. O pó e as pedras na terra machucavam a planta do pé. 


O infortúnio era ter largado a chinela no quarto. Seu pé imundo já era denúncia. Pensava na chinela de mamãe e no seu brado de desgosto, estava assustada, ave-maria-cheia-de-graça, temente ao ímpeto dos próprios pés, o-senhor-é-convosco, os olhos colados na nuca de medo. A Casa aparecia lá atrás, um pouco acima, na colina. Jurava que ouvia o suspiro leve das meninas da Casa. Julia, Tetê, Esterzinha, Dita: dormiam todas babonas, de boca aberta e o pé dançando. Por outro lado, tinha certeza que as meninas da Casa dormiam imóveis, como bonecas. Benditas-sois-vós-entre-as-meninas. 


Claro que ela gostava mais da Casa do que da casinha. A casinha era amarelo-mingau de terça-feira, aquele mingau sem açúcar, amargo. A janela de madeira realmente tinha cor de madeira e os cupins carcomiam de dentro pra fora. Já a tinta da Casa era branco-de-leite-quente, fresquinho, ordenhado no sábado cedinho, as janelas do azul do verão, em dia de missa. Ela colhia as laranjas no pomar com muito, muito apreço. Naqueles momentos, tentava ser a menina dos olhos. Sonhava sonhos bonitos se adormecia no pomar da Casa. Então colhia flores bonitas para as meninas, suas amigas. Mamãe sorria duro e dizia que amizade de sinhá não existia. Mas não era coisa nenhuma, mamãe que era ranzinza.


Pena que o frio aniquila a memória do sol e os seus pés exigiam com fúria: vamos, corra. Às vezes, perdemos controle de determinadas partes do corpo. Às vezes, a razão arrefece para que o corpo viva. Tinha muita pedra na estrada, rogai-por-nós-pequenininhos, a dor queimava.


O mundo pulava como na hora de prender um boi, porque seus pés não queriam parar o passo. O mundo era um boi sem flanco, não podia segurar. Era um tico de gente, correndo, e desceu toda a extensão da estrada de terra, correndo, até os limites da fazenda, mas não podia ver quase nada. E por não poder ver, também não viu, porém pressentiu, o portão maciço. Male-male estendeu as mãos espalmadas, deu com a porteira, madeira maciça, que dor nos dedos… Caiu de bunda no chão.


Muito bem! Pois muito bem! Suje bem os pés, agora suje a sua roupa! Que tal pular na lama


Pelo menos tinha acalmado o boi. Seus olhos pararam de pular, tudo ficou reto aos poucos. Sabia que mamãe a comeria viva no café da manhã. Mas era forte demais - a coisa - e agora a sua orelha esquerda estava puxando. Não podia desistir agora. Mesmo com os dedos em brasa. Mesmo com o traseiro doendo. Era quase hora.


III.


Sentada no chão de terra batida, sintonizando as antenas neurais. Era como brincar de "estou vendo com os meus olhinhos", mas com os olhos lá no fundo da cabeça. 


Tinha que ficar especialmente, incrivelmente, excepcionalmente parada. Estou sentindo com meus...olhinhos-mentais… Vamos ver… Vamos ver… Grilos. Grilos? Grilos. Fechou a cara: grilos. Estavam interferindo no caminho da coisa! Fez uma banana aos grilos da noite, impostores. 


De volta ao foco: onde está a coisa? O que ela diz? O que ela quer? Tudo o que se ouvia era um lamúrio infindável: estou chegando, estou chegando, estou vindo, estou chegando. Fez-se um nanossegundo de quietude. Silêncio.


Até que a Terra começou a tremer. 


Um vento sul jogou o seu corpo de pé e um vento noroeste, rude, forçou que fosse para a frente, as mãos tomaram posse da tarefa. Ela puxou a porteira com esforço colossal. Quando a razão arrefece, o corpo toma conta e se torna capaz de força escomunal. Os dentes rangeram com o peso, os ombros doeram - o boi acordou, furioso - mas a menina continuou puxando até escancarar a porteira.


O terremoto avançava. Ela queria gritar, seria o berro do júbilo, da emoção, do medo pungente, do orgulho que o felino sente por seu próprio olfato apurado. O estrondo absurdo vinha ligeiro em seu encalço. Julia se escondeu atrás da porteira, mas foi então ela viu, com certeza viu, inevitavelmente viu, como o instinto lhe apitou a tarde inteira, irremediavelmente, como o  dia engatinhando desde cedo para aquele momento, no qual ela viu e continuou jurando que viu, durante todos os dias futuros na sua vida. Com a visão periférica, numa medida de tempo não-identificada, Julia viu, claro como o dia, o morcego capa-preta, cavaleiro do alasão branco. 


Ele estava cansado. 


Via-se pelos dentes que montava um bom cavalo, daqueles que o Senhor da Casa disputaria nos leilões com os outros Senhores das outras Casas. A alvura do seu pelo era indescritível sob a luz do novilúnio. Suas quatro patas possantes golpeavam a terra, as mesmas que anunciaram sua chegada durante toda a tarde. Tinha o maior porte do mundo. Costas torneadas, pernas fortes, crina lustrosa. Como era lindo aquele cavalo!


Contudo, o cavaleiro era seu reflexo oposto. Era um homem muito comprido, porém raquítico. Pendia pra um lado, agarrado ao pescoço forte do alasão prateado. Ela via o maxilar ossudo e um queixo pontudo escapando da gola. Estava inteiro de preto. Suas botas tinham sido polidas. Usava uma cartola alta, nobre, preta, assim como duas luvas finas, nobres, pretas. E a sua capa… Por isso seu nome era Morcego Capa-Preta, pois tinha a capa do veludo mais negro e vistoso do mundo, com as bordas de cetim bordô. 


O alasão tinha olho de humano, logo se via, e bons modos também. Com o olho ele disse, assim mesmo sem pausa e sem pontuação: "COMO VAI SENHORITA BOA NOITE AGRADECEMOS SUA RECEPÇÃO BOA NOITE MUITO AGRADECIDOS". Se tivesse uma voz, seria muito grave, viria do subsolo do porão da Terra, faria o chão tremer do mesmo jeito que a feita das patas. Ela tentou sorrir, mas não havia tempo - literalmente - por se tratar de uma dimensão de medida não-identificada. Só os olhinhos-mentais ainda tinham alguma ação naquele espaço, foi com eles que disse: "Não há de quê, senhor Morcego Capa-Preta".


O cavalo respondeu: "AGORA QUE PROSEAMOS MAIS VOCÊ JÁ DIGO ADEUS MAIS A FRENTE NÓIS PROSEIA MAIS VOCÊ OU NÓIS PROSEIA MAIS ATRÁS OU QUEM SABE DE UM DOS LADO JÁ VOU-ME EMBORA". O homem comprido era incumbido das risadas desvairadas; o cavalo levava todo o papo. Com isso, arrancou em direção à fazenda. Levou o boi consigo.


Olhando na direção da Casa, não se via mais nada. Nem cavalo, nem homem, nem capa aveludada. 


(Giovana Cristina)

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