O RUSSO DO METRÔ E A VELHA-VAREJEIRA





era metrô - como na maior parte de todos os dias - e uma enxurrada de barulho. não se via o azul do chão, o que se via era mar de pé. fiquei olhando pro homem...como era bruto! magro, embrutecido. loiro, do tipo russo, tez acinzentada, a barba espevitada, mãos rudes. a calça esgarçada pela vida de pedreiro. a tinta branca überclareava os dedos. o aço do trem beliscava a velocidade da luz e de repente estagnava. na primeira estagnada, um mar de velhinhos entrou. a naftalina preencheu o ar e todas as velhinhas cercaram o russo. muito bem sentado, sujo, bruto. ai, tinha os olhos muito verdes, muito brilhantes, muito focados no candy crush. um moço tão bruto, com as pernas bem longas e volume no meio... deve ter uma parede lá em casa pra pintar, pra passar uma massa corrida, uma goteira no teto pra tapar... mas o rebanho de velhas tampava a visão, pululando e agradecendo a deus toda vez que a gravidade estabilizava. era eu e outro rapaz encarando o russo. pena dele que eu tava muito mais perto e meu olho era muito maior. fiquei olhando pro russo até ele perder pra valer, até que finalmente levantou a cara. 

trocamos olhar conturbado. tava pra franzir a testa, quando uma delas agarrou no seu braço e disse "ai me perdoa meu filho". ficamos olhando pro braço - forte, cheio de pelo aloirado - enquanto ela tinha uma mão cediça, translúcida sim, manchada pelo tempo, mas firme, muito bem firme, agarrada no homem. todo mundo riu. ele deu um espaço pra ela sentar e riu também. os dentes retos, manchado de fumo. eu ri porque ele riu. ele me viu rindo e riu diferente, de ladinho. aí eu ri diferente também, mas a velha apertou o braço dele de novo:

eu já vou pedindo desculpa, porque nós é tudo velho cansado, mas esse povo foi generoso no coração, sabe? tá vendo a pulseirinha do hospital, não é? justamente, pois então, o que acontece é que tem um MOSQUITO dentro do meu ouvido, o danado tá aí zumbindo e se criando no meu ouvido, nunca pensei nisso, mas é que lá na serra da cantareira os bichos são tudo criado, olha que eu já lambuzei tudo de ricino, de azeite, entupi tudo de água e nada, o bicho não sai por NADA, é um parasita, parece que gostou de mim. com a sorte que eu tenho, eu tenho certeza que deve ser um filhotinho de varejeira e vai explodir minha orelha de dentro pra fora.

Comentários

Postagens mais visitadas