PORTEIRA - I
Já era noite alta. Hora comum da suspensão de qualquer sinal de vida.
A fazenda dormia. Os bichos no curral dormiam. A casa grande dormia. O estábulo dormia. A plantação crescia muito quieta. As crianças do caseiro dormiam. O próprio caseiro e sua esposa sonhavam seu sétimo sonho. Era tempo de sono em Birigui e o mundo cansado repousava.
Só a caçula forçava os olhinhos abertos. Tinha a leve companhia dos grilos noturnos! ...mas a música ainda dava nos nervos. O beiral da janela gelava: o vento frio e a madrugada quieta. A sua camisola dançava, pra lá, pra cá, como um fantasma (malditos grilos da noite, não cantem pra minha roupa dançar), mas ela estava parada, imóvel, sintonizando os ouvidos. A vela ao pé da cama ia morrendo.
A irmã, Terezinha, já estava entregue ao sono, descrente. Descrente, sim, porque era tola. Mamãe sempre dizia, essa menina é um precipício de arrogância, sobre-si! Olhando Maria, fingia que era um precipício também, sendo que Maria era grande e já não colhia os brincos-de-princesa para usá-los como tal, então não havia sentido ou motivo de querer ser como Maria. Maria estava treinando para ser Maria como mamãe, que não era de acaso também ser Maria. Talvez fosse uma sina nominal. Era uma pena imaginar Maria ficando amarga como boldo. Embrulhava até o estômago.
O descaso de Terezinha era motivo de aniversário - e ofensa absurda - sendo que estavam há horas escondidas no quarto, cochichando na janela, sentindo a sombra baixar. Tinham escutado muito bem, juntas, o eco surdo de alguma coisa se assomando no horizonte, quando já ia o sol descendo a serra. Ouviram os ruídos da casa se aquietando até o completo marasmo. Mamãe não chamaria duas vezes para a janta: economizava no amor e nas palavras, fazia render a comida. Mesmo depois do pleno silêncio, restava aquela coisa suspensa, vindo, meu-deus, pulsando, chamando na noite, chegando.
O descaso da irmã era motivo de aniversário, até porque cada qual nasce do mesmo jeito que um peixe-diabo negro: tendo uma luzinha bem no meio dos olhos. Papai dizia que os pequeninos veem mais longe. Tetê tinha enxergado e escutado direitinho, sim senhor, mas só por um momento. Pobre infeliz, o mal da idade e puberdade já tinha causado as caraminholas; tinha sua luzinha fraquejando.
Primeiro começou a zombar, depois cruzou os braços em troça, por fim adormeceu de birra. Certamente acordaria chamando-a louca. E ela seria de novo a caçulinha, caçulinha doida, menina espevitada, Julinha do sangue quente. Mamãe daria um olhar duro, doído; papai mediria a sua febre: julgava sempre a menina febril.
Sentiu um aperto no peito só de pensar na cara fria que mamãe faria. O que faria se a encontrasse ali, desperta? Valha-me deus, arrepiou-se.
Julia estava muito quieta, seu coração ia a galope. Espera, o que era aquilo? Mamãe dava um olhar duro, doído. Sim, doía, mas não era isso. Tetê adormeceu só de maldade. Também, mas não, não era isso. Um pouco a frente. Coração batia. Batia? Adoidado, ia a galope. Galope?
Então ela soube. Pulou a janela e correu descalça até a estrada de terra.


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